domingo, 29 de julho de 2012

Aprendendo a escutar

Bem, hoje estamos completando três semanas de convivência com a Dorita. Eu diria que ainda estamos na fase de aprendizado mútuo. Ela aprendendo a viver conosco e nós com ela. É um aprendizado difícil pra todos nós, mas como o esforço é grande dos dois lados, acabará dando certo. A imagem que me vem com mais freqüência é a da chegada de um bebê a uma casa. Por mais que esse bebê tenha sido desejado, planejado, esperado, a realidade da presença é sempre complicada para os dois lados. Leva um tempo pra que essa nova presença seja assimilada na casa e para que a criança aprenda a lidar com as ofertas e as limitações dos seus pais.
     Lembro sempre de um psicanalista carioca (Francisco Daudt da Veiga, pra quem se interessar) que contava sua experiência com o nascimento de sua primeira filha e sua alegria no dia em que percebeu que, pela primeira vez, ela parara de chorar quando ele abriu a porta do quarto dela. Ele entendeu (coisa de psicanalista) que sua filha já havia assimilado o barulho da porta sendo aberta como um sinal de que o socorro estava chegando. Ou seja, ela não precisava mais da presença física do pai ou da mãe ao seu lado, ou do atendimento real de sua necessidade (fome, frio, fralda suja...) para saber, dentro dela, que ela seria cuidada.
     Esse é um processo que no caso de uma criança recém nascida leva alguns meses, se tudo corre bem. No caso de uma mulher de mais de 80 anos que teve poucas oportunidades de sentir essa segurança e que acabou de perder grande parte dos referenciais que fizeram dela quem ela é não sabemos quanto tempo pode levar. Estamos tentando ajudá-la da melhor maneira possível e sinto que ela também procura nos ajudar a cuidar dela. Coisas como a melhor posição para dormir, as comidas preferidas, o cobertor que a madrinha deu de presente, são referências que nós vamos utilizando junto com ela pra criar um universo mais amigável, com objetos que ela possa reconhecer e que façam parte da sua história de vida.
     Falando em história de vida me ocorre que uma coisa que desde criança eu aprendi a reconhecer como o modo de ser da Dorita tem a ver com algo que acontece agora. Ela está sempre se queixando de algum tipo de dor e atribui sua dificuldade de dormir às dores que ela sente. Curiosamente, durante o dia, as queixas não existem ou são de curta duração. Mas à noite, depois que a deixamos na cama, ela começa a se queixar de dor e a gemer ou gritar de uma maneira que não ocorria antes. Minha questão é: que dor é essa da qual ela passou a vida inteira se queixando? Afinal, além das dores do corpo, existem também as dores da alma. 

P.S: Na foto, ao lado da Dorita, nossa gata (Fleur), com quem ela parece se entender muito bem.
     
     

4 comentários:

  1. Que bunitinha ela com a Fleur!! Espero que a Fleur vá se chegando até ficar no colo dela. Tenho certeza que ela iria adorar!

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  2. É importantissimo essa percepção nossa de ver que ela quer nos ajudar a guia-la a se encontrar outra vez. Nas sessões de fisioterapia que ela teve aqui em casa sua força de vontade em vencer os obstaculos - super penosos para sua idade - eram hercúleos, a palavra é essa e com essa força. Tudo isso era animado com vivas, palmas, beijos e parabens, era preciso aumentar sua auto-estima, exatamente como uma criança.
    O ditado popular é: "Deus escreve certo por linhas tortas...", e acho que, enfim, ela está com pessoas certas, na idade certa em que precisa de toda essa compreensão que só um psicanalista fora do comum poderia ter. Vá em frente, meu filho, ela vai se encontrar, e, isso vai se dar junto com toda sua familia composta de pessoas super especiais. Parabens Ana, parabens meninos lindos, Victor e Tomas. De longe sinto a energia fantastica que está vindo de Ourinhos para cá!... e, Viva a Fleur!

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  3. Que coisa mais fofa a gatinha ao lado de Dorita, logo logo se tornaram amigas inseparaveis.

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  4. Oi Anae Guilherme até que enfim hoje dia 1 de agosto estou podendo dizer algumas palavras a vocês. Infelizmente eu não sei lidar com aomputador sempre depemdo de Gioconda e Ana Luzia e sempre estão com coisas s fazer mas, podem ter certeza que o que voces estão fazendo por Dorita voces serão recompensados Guilherme e Ana se eu os admirava hoje então nunca me esqueceri deste ato belissimo que voces estão com Dorita ela é merecedora de estar ao lado de pessoas como voces recebendo todo esse amor e carinho. Beijos a voces parabens por esses filhos lindos e digam a Dorita que lhes mando um beijo dentro do seu coração, Socorrita.

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